BLOG COM TEXTOS LITERÁRIOS PARA ENTRETENIMENTO


Para ler poemas, fragmentos e poesia em prosa que ousei publicar na internet, veja www.lapidandopedras.blogspot.com

segunda-feira, 29 de julho de 2013

FERNANDO PESSOA - NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS E DE AUTOGNOSE

Um pouco sobre política atual, escrita há mais de cem anos...

* * *

"O meu intenso sofrimento patriótico, o meu intenso desejo de melhorar Portugal, provocam em mim (...) mil projectos que, mesmo se realizáveis por um só homem, exigiriam dele uma característica puramente negativa em mim - força de vontade. Mas sofro - até os limites da loucura, juro-o - como se tudo eu pudesse fazer sem, no entanto, o poder realizar, por deficiência da vontade. (...)

E, depois, incompreendido. Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mas intenso do que o de todos aqueles a quem encontro ou conheço. (...) Como posso dizer que a sua preocupação não iguala a minha? Porque, nalguns casos - na maior parte, até - o seu temperamento é inteiramente diferente; porque, noutros casos, a sua maneira de falar revela a ausência de, ao menos, um patriotismo nominal.

(...)

Além dos meu projectos patrióticos - escrever 'República de Portugal', provocar aqui uma revolução, escrever panfletos portugueses, (...), fundar um periódico, (...) etc. - outros planos em que me consumo na necessidade de serem em breve postos em prática (...) conjugam-se para produzir um impulso excessivo que me paralisa a vontade. (...)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Edimilson - Cartografía II

CARTOGRAFÍA II – EDIMILSON 

el norte es laberinto

aunque el mar
se resuelva
en continente

y el continente vertido
en cuerpo
se admire de la propia
ganancia

: en la superficie
los embates son fábricas
de artificios
y muertos

lo que fue arrojado
a las olas
sube al maxilar
de la historia

pero por si no
reinventa la máquina
es necesario revolver
el eclipse

que sirvió
de timón a la barca
y de venda
a los embarcados

: hacia el norte otro
norte
como si el viaje no
fuese cárcel

y la ruta
de la sangre apellido
escarnio
como si la caverna

(donde la razón
madura)
no fuese la boca
del monstruo

: al norte la
desorientación y el
sigilo
los huesos del oficio

la memoria
colecciona lapsos
por eso
asáltala con

el lenguaje
extraído con fórceps
del mar
: al norte

una confrontación
de ostras
hasta que el exilio
termine

y la máquina
suene
música, otra que
no la muerte



Tradução de Tereza Arigón e Camilla Alves

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Claudio Willer

[a imagem da ultima linha]




impulsionava-nos certa atração pelo sublime
e nós nos entretínhamos a decifrar a errante caligrafia do tempo
nervosamente rabiscada na pauta das ondas
até que punhais de nuvens arcaicas emoldurando o entardecer
viessem se cravar em nosso i
nfinito
e sentíssemos os cabelos da noite crescerem vagarosamente
pois a escuridão havia chegado
para reclinar-se em seu colchão de maresias
então,
entre a onda e o lampejo da onda
entrevimos o perfil em chamas de nossos corpos
entre o vivido e o não-vivido
o traço cambiante da arrebentação
entre os ruídos do mar e os ruídos da cidade
a complicada geometria de nossos silêncios
e um insperado perfume de jasmins
por mim
nunca mais sairia dali
ficaria por lá mesmo
para sempre percorrendo a praia
a acompanhar a insofrida inquietação dos astros presos a suas órbitas

sábado, 2 de março de 2013

Paulo Mendes Campos - Neste Soneto - 1951


Neste soneto

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.

Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma é pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.

Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto

Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Definición - Lope de Vega


Desmayarse, atreverse, estar furioso,
aspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo, 
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el dano,

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengano,
esto es amor; quien lo probo, lo sabe.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Baudelaire - La Destruction



La Destruction

Sans cesse à mes côtés s'agite le Démon;
II nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l'avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l'emplit d'un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l'Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

II me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l'Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l'appareil sanglant de la Destruction!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

BAUDELAIRE - LE COUVERCLE


BAUDELAIRE - LE COUVERCLE

En quelque lieu qu'il aille, ou sur mer ou sur terre,
Sous un climat de flamme ou sous un soleil blanc,
Serviteur de Jésus, courtisan de Cythère,
Mendiant ténébreux ou Crésus rutilant,

Citadin, campagnard, vagabond, sédentaire,

Que son petit cerveau soit actif ou soit lent,
Partout l'homme subit la terreur du mystère,
Et ne regarde en haut qu'avec un oeil tremblant.

En haut, le Ciel! Ce mur de caveau qui l'étouffe,
Plafond illuminé par un opéra bouffe
Où chaque histrion foule un sol ensanglanté;

Terreur du libertin, espoir du fol ermite;
Le Ciel! Couvercle noir de la grande marmite
Où bout l'imperceptible et vaste Humanité. 




A TAMPA - (TRAD. IVAN JUNQUEIRA)
 


Seja aonde for que vá em torno desta esfera,
Sob um clima de fogo ou sob um sol distante,
Servidor de Jesus ou cortesão de Citera,
Mendigo tenebroso ou Creso rutilante,

Pária, campônio, citadino e às vezes fera,
Seja-lhe o cérebro moroso ou esfuziante,
O homem sucumbe ante o mistério que o exaspera,
E não eleva o olhar senão por um breve instante.

No alto, o Céu! Paredão que o abafa como estufa,
Cenário ébrio de luz para uma ópera bufa
De cujo palco ensanguentado o histrião se serve;

Terror do libertino, anseio do eremita;
O Céu! Tampa sombria da imensa marmita
Onde indivisa a vasta Humanidade ferve.