BLOG COM TEXTOS LITERÁRIOS PARA ENTRETENIMENTO


Para ler poemas, fragmentos e poesia em prosa que ousei publicar na internet, veja www.lapidandopedras.blogspot.com

quarta-feira, 20 de junho de 2012

POEMA DE LOS DONES - BORGES



Para quem quiser se arriscar no espanhol e ler o original de Borges, "Poema de los Dones". Este foi publicado em 60, no clássico "El Hacedor". Cinco anos depois ele publicou outro poema, chamado "Otro Poema de los Dones". Boa chuveirada! Não precisa nem conhecer o espanhol para contemplar um belo poema. O outro poema? Fica pra depois...

Poema de los Dones

Nadie rebaje a lágrima o reproche

esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.

terça-feira, 8 de maio de 2012

AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION - DYLAN THOMAS



O time saxônico tem um viés particular ao cantar. Como Yeats, poeta ao que já me referi, imprimem realidades a significados escancarados, seja a temática morte, amor, metapoesia, etc.... E as imagens, salvo equívoco, seguem. E o ritmo... este, vem de quebra.... Abaixo um clássico de qualquer coletânea.
 

 AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION

And death shall have no dominion.
Dead mean naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.




Há nítido foco no significado.  Primeiro o significado; as imagens o acompanham; e, o ritmo parece vir automático. Por quê?... Quantas linhas em sugestões imperativas ou afirmativas....?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ESPANQUEMOS OS POBRES - BAUDELAIRE



(tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira)


(...)


Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se é que o espírito removesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem. 

 (...)

Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.

Tendo, em seguida, com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas, botei por terra aquele sexagenário enfraquecido; peguei, então, um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.

De repetente – ó milagre! Ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria que houvesse numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, bateu-me fortemente. Pela minha enérgica medicação, eu lhe havia restituído o orgulho e a vida.

Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista de Pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se: se você é realmente filantropo, que é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive o sofrimento de experimentar sobre suas costas.”

Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O MAU VIDRACEIRO - BAUDELAIRE - POEMA EM PROSA




Há naturezas meramente contemplativas e de todo inaptas para a ação, mas que, sob um impulso misterioso e desconhecido, agem por vezes com uma rapidez de que elas mesmas se julgariam incapazes.

Uma pessoa que, com receio de receber do porteiro uma notícia aflitiva, ronda medrosa uma hora em torno da porta sem se decidir a entrar; outra que, durante quinze dias guarda uma carta sem abri-la ou só ao fim de seis meses resolve tomar a providência que se fazia necessária desde um ano atrás, sentem-se, em dados instantes, impelidas para a ação por uma força irresistível, como a flecha de um arco. O moralista e o médico, que tudo pertencem saber, não podem explicar donde vem tão de repente uma tão louca energia a essas almas preguiçosas e voluptuosas, e como, incapazes de realizar as coisas mais simples e mais necessárias, encontram elas em certo momento uma esplêndida coragem para executar os atos mais absurdos e, não raro, até os mais arriscados.

Um de meus amigos, o mais inofensivo sonhador que porventura já existiu, certa vez ateou fogo a uma floresta para ver, dizia ele, se o fogo pegava com tanta facilidade como se costuma afirmar. Dez vezes seguidas a experiência falhou; mas na undécima o resultado excedeu a expectativa.

Outro acenderá um charuto perto de um barril de pólvora, para ver, para saber, para tentar a sorte, para se obrigar a si mesmo a dar prova de energia, para se fazer de jogador, para conhecer os prazeres da ansiedade, para coisa nenhuma, por capricho, por falta de ocupação.

É uma espécie de energia que brota do devaneio e do tédio; e aqueles em quem ela se manifesta de maneira tão inopinada são, em geral, como já o disse, os mais indolentes e os mais sonhadores entre os seres.

Outro, tímido a ponto de baixar os olhos até ante os olhares dos homens, a ponto de lhe ser preciso enfeixar todas as parcelas de sua pobre vontade para entrar num café ou passar à portaria dum teatro, onde os porteiros lhe parecem investidos na majestade de Minos, de Éaco ou de Radamento, saltará de relance ao pescoço de um velho que caminha a seu lado e o beijará com entusiasmo perante a multidão atônita.

Por quê? Porque... porque essa fisionomia lhe era irresistivelmente simpática? Talvez; mas é mais lícito supor que ele mesmo não sabe por quê.

Mais de uma vez fui vítima destas crises e destes impulsos, que nos autorizam a crer que malignos Demônios se infiltram em nós e nos induzem a realizar, à nossa revelia, os seus mais absurdos caprichos.

Certa manhã, levantara-me aborrecido, triste, fatigado de inércia, e impelido, parecia-me, a fazer algo grandioso, uma ação brilhante; e abri a janela - ai de mim!

(Observem, por favor: o espírito de mistificação, que, nalguns seres, não resulta de trabalho ou de cálculo, mas de uma inspiração eventual, participa muito, ao menos pelo ardor do desejo, desse humor - histérico segundo os médicos, satânico segundo os que pensam um pouco melhor que os médicos - que nos arrasta sem resistência a inúmeras ações perigosas ou incovenientes.)

A primeira pessoa que avistei na rua foi um vidraceiro, cujo grito dilacerante, dissonante, subiu até mim através da pesada e suja atmosfera parisiense. Ser-me-ia impossível dizer por quê - senti-me possuído, em relação àquele homem, de um ódio súbito e despótico.

- Olá! Olá!

Gritei-lhe que subisse. Entretanto refletia, não sem algum prazer, que, ficando o quarto no sexto andar e sendo a escada muito estreita, ele teria de sentir alguma dificuldade em realizar a ascensão, e não poderia defender de numerosos esbarrões a sua frágil mercadoria.

Apareceu, afinal; examinei-os, curioso, todos os seus vidros, e disse-lhe:

- Como? Não tem vidro de cor? vidros róseos, vermelhos, azuis, vidros mágicos, vidros paradisíacos? Descarado! ousa andar em bairros pobres, e não tem, sequer, vidros que façam ver o lado belo da vida!

E empurrei-o energicamente para a escada, onde ele tropeçou, a resmungar.

Aproximei-me do balcão, agarrei um pequeno jarro de flores e, quando o homem reapareceu na soleira, deixei cair perpendicularmente a minha máquina de guerra sobre o resultado posterior da sua carga; e, como o choque o derrubasse de costas, ele acabou de espedaçar sob o dorso toda a sua pobre fortuna ambulatória, que produziu o fragor de um palácio de cristal fendido pelo raio.

E, ébrio da minha loucura, gritei-lhe furioso:


- O lado belo da vida! O lado belo da vida!

Esses graciosos nervosos não deixam de ter o seu perigo, e podem muitas vezes custar caro. Que importa, porém, a danação eterna a quem encontrou num segundo o infinito do prazer?

sábado, 14 de abril de 2012

EL POETA PIDE A SU AMOR QUE LE ESCRIBA (GARCÍA LORCA)


Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

OLIVERIO GIRONDO 6 - ESPANTAPAJAROS

Mis nervios desafinan con la misma frecuencia que mis primas. Si por casualidad, cuando me acuesto, dejo de alarme a los barrotes de la cama, a los quince minutos me despierto, indefectiblemente, sobre el techo de mi ropero. En ese cuarto de hora, sin embargo, he tenido tiempo de estrangular a mis hermanos, de arrojarme en algún precipicio y de quedar colgado de las ramas de un espinillo.

Mi digestión inventa una cuantidad de crustáceos, que se entretienen en perforarme el intestino. Desde la infancia, necesito que me desabrochen los tiradores, antes de sentarme en alguma parte, y es rarísimo que pueda sonarme la nariz sin encontrar en el pannuelo un cadáver de cucaracha.

Todavia, cuando llovizna, me duele la pierna que me aputaron hace tres annos. Mi rìnnon derecho es un maní. Mi rínnon izquierdo se encuentra en el museo de la Facultad de Medicina. Soy políglota y tartamudo. He perdido, a la loteria, hasta las unnas de los pies, y en el instante de firmar mi acta matrimonial, me di cuenta que me había casado con una cacatúa.

Las margenes de los libros no son capaces de encauzar mi aburrimiento y mi dolor. Hasta las ideas más optimistas toman un coche fúnebre para pasearse por mi cerebro. Me repugna el bostezo de las camas deshechas, no siento ninguna propensión por empollarme los senos a las mujeres, y me enferma que los boticarios se equivoquen, con tan poca frecuencia, en los preparados de estricnina.

En estas condiciones, creo sincermente que lo mejor es tragarse una cápsula de dinamita y encender, con toda tranquilidad, un cigarrillo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O LABOR DISCRETO - WALDO MOTTA

Às vezes, abro um livro aleatoriamente, leio um poema que me causa certa primeira impressão. Raramente, vou diretamente ao primeiro poema. Fiz isso com João Cabral de Melo Neto. Hoje, transcrevo o primeiro poema do livro Transpaixão, do Waldo Motta.

O LABOR DISCRETO

As coisas não mudam assim
da noite para o dia, céleres.

Por isso, perdi a flama
que fazia de meus versos

uma tocha iracunda.
Porque no final das contas

o importante é ter mudado
um pouco de mim, ao menos.

O cupim, no anonimato,
rói as vértebras deste tempo.

Waldo Motta, in Transpaixão, Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 2a Edição, Vitória: 2008