Capítulo Primeiro
Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
* * *
Nota minha: outro dia comentei sobre o 'modo' pelo qual um autor deveria começar uma prosa qualquer... e um amigo me respondeu, acertadamente, 'ora, começando...'. Mas, volta e meia, continuo encontrando 'alguns modos' de começar uma prosa peculiares. Como as linhas transcritas acima. Campos de Carvalho, reconhecido depois do seu tempo, relembro, ainda foi colaborador do semanário 'O Pasquim'.
(Carvalho, Campos de, em Obra Reunida; 3a Edição. Editora José Olympio, Rio de Janeiro: 2002)
BLOG COM TEXTOS LITERÁRIOS PARA ENTRETENIMENTO
Para ler poemas, fragmentos e poesia em prosa que ousei publicar na internet, veja www.lapidandopedras.blogspot.com
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
MODERNISMO, SURREALISMO E MURILO MENDES – NOTAS: JOSÉ GUILHERME MERQUIOR – POEMA: CONHECIMENTO.
MERQUIOR
“(...) o modernismo brasileiro foi um estilo
híbrido e heterogêneo, feito da convivência ou fricção de ‘estilemas’
tipicamente ‘arte moderna’. (...) Por isso mesmo é que nosso modernismo literário
seria (...) um ‘complexo’ estilístico. Não foi por acaso que só pôde ter a
unidade de um ‘movimento’, jamais a uniformidade de uma ‘escola’. (...).”
“(...) Por outro lado, porém, mesmo
instintivamente é fácil perceber que há algo inadequado em encarar-se o
surrealismo como um ‘estilo’. (...) Quer dizer, o projeto surreal não era, em
substância, estético, mas sim de cunho, antes de tudo, existencial. (...) do
ponto de vista de suas intenções originárias, patenteadas pela maioria dos seus
ritos semióticos, o surrealismo não se queria um estilo a mais, e sim uma
autêntica ‘revolução cultural’. (...).”
“(...) e não às receitas de escola, tipo ‘escrita
automática’ (...). O vou-me-emborismo, o legado baudelaireano e rimbaudiano da ‘poesia
da partida’, encontra em Murilo um desdobramento dialético, representado por um
constante impulso de estar no mundo. (...) Em Murilo, a ruptura onírica, o
transfiguracionismo visionário possuem sempre um endereço infalivelmente
imanentista.”
“(...) ‘Murilo orienta decisivamente a mescla
estilística inerente à poesia surreal’ – a tensão, no verso, entre a visão ‘problemática’
da vida e as múltiplas referências ao reino do cotidiano e do vulgar – ‘para
uma ótica saturnal’. (...).”
“(...) Os modernismos, como é sabido, de vez
em quando gostavam de fazer pipi no colo do decoro literário. A ‘distância
clássica’ da imagística, a eufonia do ritmo na média da alta poesia vitoriana
passaram de repente a soar tão falso, que somente hoje, com um quarto de século
de permeio, recomeçamos a apreciar com isenção a ética da estética
oitocentista. Nos anos heroicos da vanguarda, isso era, naturalmente, quase
impossível, e Pound (com quem Murilo se entendeu muito bem) reclamava virtuoso
a rejeição de toda ‘Tennysoniannes of speech’. (...).”
* * * * *
Minha nota: até hoje, muitos poetas, críticos
e teóricos insistem em negar a apreciação da ética contida na estética de
outros tempos, por causa de suas estéticas, gostos, preconceitos e ideologias próprias,
esquecendo-se do conteúdo ético que não se aprende via ‘escolas’.
* * * * *
MURILO MENDES – CONHECIMENTO (em A Poesia em
Pânico – 1937)
CONHECIMENTO
A marcha das constelações me segue até no
lodo.
Estendo os braços para separar os tempos
E indico ao navio de poetas o caminho do
pânico.
Quem sou eu? A sombra ambulante de meus pais
até o primeiro homem,
Quem sou eu? Um cérebro deixado em pasto aos
bichos,
Sou a fome de mim mesmo e de todos,
Sou o alimento dos outros,
Sou o bem encarcerado e o mal que não
germina.
Sou a própria esfinge que me devora.
* * * * *
(Merquior, José Guilherme. Notas para uma
Murisloscopia; e Mendes, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Volume único. Nova
Aguilar: Rio de Janeiro: 1994)
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
SEVEN SEALS - D.H.Lawrence
THE SEVENTH SEAL
O último livro do novo testamento, Apocalipse, descreve em seus capítulos sete selos, ou sete confirmações, autenticações, em tom profético, os quais protegeriam o próprio livro. Segundo um amigo, são sete passagens apocalípticas nas quais não se encontraria a gênese. Não se encontraria a gênese, sim; pois, ao final de cada século, a humanidade tem optado pela guerra ao longo dos tempos. Os seis primeiros selos estão contidos no capítulo 6; e, o sétimo selo, no 8 do "Book of Revelations". Tema artístico de ontem, hoje e amanhã. O destaque fica para o filme de Ingmar Bergman, com Max von Sydow, imperdível. Aqui, um trecho (parte final), sobre o mesmo tema, cantado, em poesia, por D.H.Lawrence... No texto abaixo, há um viés do apocalipse bíblico: a espada do Senhor seria afiada, como os versos encerram o poema.
O último livro do novo testamento, Apocalipse, descreve em seus capítulos sete selos, ou sete confirmações, autenticações, em tom profético, os quais protegeriam o próprio livro. Segundo um amigo, são sete passagens apocalípticas nas quais não se encontraria a gênese. Não se encontraria a gênese, sim; pois, ao final de cada século, a humanidade tem optado pela guerra ao longo dos tempos. Os seis primeiros selos estão contidos no capítulo 6; e, o sétimo selo, no 8 do "Book of Revelations". Tema artístico de ontem, hoje e amanhã. O destaque fica para o filme de Ingmar Bergman, com Max von Sydow, imperdível. Aqui, um trecho (parte final), sobre o mesmo tema, cantado, em poesia, por D.H.Lawrence... No texto abaixo, há um viés do apocalipse bíblico: a espada do Senhor seria afiada, como os versos encerram o poema.
SEVEN SEALS
(...)
And there
Full mid-between the champaign of your breast
I place a great and burning seal of love
Like a dark rose, a mystery of rest
On the slow bubbling of your rhythmic heart.
Nay, I persist, and very faith shall keep
You integral to me. Each door, each mystic port
Of egress from you I will seal and steep
In perfect chrism.
Now it is done. The mort
Will sound in heaven before it is undone.
But let me finish what I have begun
And shirt you now invulnerable in the mail
Of iron kisses, kisses linked like steel.
Put greaves upon your thighs and knees, and frail
Webbing of steel on your feet. So you shall feel
Ensheathed invulnerable with me, with seven
Great seals upon your outgoings, and woven
Chain of my mystic will wrapped perfectly
Upon you, wrapped in indomitable me.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
'CANCIONEIRO' - FERNANDO PESSOA - ABAT-JOUR
"Fixar um estado de alma, ainda que não o seja, em versos que o traduzam impessoalmente; descrever as emoções que se não sentiram com a própria emoção com que sentiram - é este o privilégio do poeta, se o não o fossem, ninguém os acreditava.....De resto, o único prefácio de uma obra é o cérebro que quem a lê."
(IX, Para a compreensão de 'cancioneiro', de 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'; Ed. Atíca, Lisboa). Um mero 'abat-jour' causa tudo isso...
ABAT-JOUR
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.
Bem sei ... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
Com Simony Braga, FERNANDO PESSOA, POESIAS. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) ( Lisboa: Ática, 1942, 15ª ed. 1995), in CANCIONEIRO.
(IX, Para a compreensão de 'cancioneiro', de 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'; Ed. Atíca, Lisboa). Um mero 'abat-jour' causa tudo isso...
ABAT-JOUR
A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.
E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.
Bem sei ... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!
E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...
Com Simony Braga, FERNANDO PESSOA, POESIAS. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) ( Lisboa: Ática, 1942, 15ª ed. 1995), in CANCIONEIRO.
sábado, 1 de setembro de 2012
FRAGMENTOS - 'PORTRAIT OF A LADY - PRUFROCK - 1917, T.S.Eliot
II
Now that lilacs are in bloom / She has a bowl of lilacs in her room / and twists one in her fingers while she talks. / 'Ah, my friend, you do not know, you do not know / What life is, you who hold it in your hands' / (slowly twisting the lilac stalks) / 'You let it flow from you, you let it flow, / And youth is cruel, and has no remorse / And smiles at situations which it cannot see' / I smile, of course / And go on drinking tea.
…
You are invulnerable; you have no Achilles’ heel. / You will go on, and when you have prevailed / you can say: at this point many one has failed. / But what have I, my friend / to give you, what can you receive from me? / Only the friendship and the sympathy / of one about to reach a journey’s end. / I shall sit here, serving tea for friends…
I take my hat: how can I make a cowardly amend / for what she has said to me? / You will see me any morning in the park / reading comics and the sporting page. / Particularly I remark / An English countess goes upon the stage. / A Greek was murdered at a Polish dance. / Another bank defaulter has confessed. / I keep my countenance, / I remain self-possessed / except when a street – piano / reiterates some common song / with the smell of hyacinths across the garden / recalling things that other people have desired. / Are these ideas wright or wrong?
III
…
‘Perhaps you can write to me.’ / My self-possession flares up for a second; / ‘this is what’ as I had reckoned. / ‘I have been wondering frequently of late / (but our beginnings never know our ends) / why we have not developed into friends.’ / I feel like one who smiles / and turning shall remark / suddenly, his expression in a glass. / My self-possession gutters; / We are really in the dark.
‘For everybody said so, all of our friends / they all were sure our feelings would relate / so closely! I myself can hardly understand. / We must leave it now to fate. / You will write, at any rate. / Perhaps it is not too late. / I shall sit here serving tea for friends’.
And I must borrow every changing shape / to find an expression… dance, dance / like a dancing bear / cry like a parrot, chatter like an ape. / Let us take the air / in a tobacco trance –
Well!! What if she should die some afternoon / should die and leave me / sitting pen in a hand/ with the smoking coming down / above the housetops; / doubtful, for a while / not knowing what to feel or if I understand / or whether wise or foolish / tardy or too soon… / Would she not have the advantage, after all? / This music is successful with a ‘dying fall’, / now that we talk about dying – / Should I have the right to smile?
Now that lilacs are in bloom / She has a bowl of lilacs in her room / and twists one in her fingers while she talks. / 'Ah, my friend, you do not know, you do not know / What life is, you who hold it in your hands' / (slowly twisting the lilac stalks) / 'You let it flow from you, you let it flow, / And youth is cruel, and has no remorse / And smiles at situations which it cannot see' / I smile, of course / And go on drinking tea.
…
You are invulnerable; you have no Achilles’ heel. / You will go on, and when you have prevailed / you can say: at this point many one has failed. / But what have I, my friend / to give you, what can you receive from me? / Only the friendship and the sympathy / of one about to reach a journey’s end. / I shall sit here, serving tea for friends…
I take my hat: how can I make a cowardly amend / for what she has said to me? / You will see me any morning in the park / reading comics and the sporting page. / Particularly I remark / An English countess goes upon the stage. / A Greek was murdered at a Polish dance. / Another bank defaulter has confessed. / I keep my countenance, / I remain self-possessed / except when a street – piano / reiterates some common song / with the smell of hyacinths across the garden / recalling things that other people have desired. / Are these ideas wright or wrong?
III
…
‘Perhaps you can write to me.’ / My self-possession flares up for a second; / ‘this is what’ as I had reckoned. / ‘I have been wondering frequently of late / (but our beginnings never know our ends) / why we have not developed into friends.’ / I feel like one who smiles / and turning shall remark / suddenly, his expression in a glass. / My self-possession gutters; / We are really in the dark.
‘For everybody said so, all of our friends / they all were sure our feelings would relate / so closely! I myself can hardly understand. / We must leave it now to fate. / You will write, at any rate. / Perhaps it is not too late. / I shall sit here serving tea for friends’.
And I must borrow every changing shape / to find an expression… dance, dance / like a dancing bear / cry like a parrot, chatter like an ape. / Let us take the air / in a tobacco trance –
Well!! What if she should die some afternoon / should die and leave me / sitting pen in a hand/ with the smoking coming down / above the housetops; / doubtful, for a while / not knowing what to feel or if I understand / or whether wise or foolish / tardy or too soon… / Would she not have the advantage, after all? / This music is successful with a ‘dying fall’, / now that we talk about dying – / Should I have the right to smile?
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Del Sentimiento de lo Fantástico - Julio Cortázar
DEL SENTIMIENTO DE LO FANTÁSTICO – Julio Cortázar
Esta mañana Teodoro W. Adorno hizo una cosa de gato:
en mitad de un apasionado discurso, se quedó inmóvil y rígido mirando fijamente
un punto del aire en el que para mí no había nada que ver hasta la pared donde
cuelga la jaula del obispo de Evreux, que jamás ha despertado el interés de
Teodoro. Cualquier señora inglesa hubiera dicho que el gato estaba mirando un
fantasma matinal, los más auténticos y verificables, y que el paso dela rigidez
inicial a un lento movimiento de la cabeza de izquierda a derecha, terminando
en la línea de visión de la puerta, demostraba de sobra que el fantasma acabara
de marcharse, probablemente incomodado por esa detección implacable.
(La Vuelta al Día en Ochenta Mundos – Tomo I – Siglo Veintiuno
Editores. Buenos Aires: 1996)
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
DE LA SERIEDAD EN LOS VELORIOS
(…)
De entre eses relatos elijo, sabiendo que lo malogro, la
historia de cómo unos conocidos de Gancedo que llamaré prudentemente de Solano
y Copitas fueran a un velorio y lo que pasó en él.
A Solano le tocó acarrear el pésame en nombre de los
compañeros de oficina del difunto, changa que le abrumó al punto de buscar
apoyo moral en el mostrador de un bar donde ya estaba Copitas en abierta
demonstración de lo acertado del sobrenombre. A la sexta grapa Copitas condescendió
a acompañar a Solano para levantarle el ánimo, y cayeron al velorio en alto
grado de emoción etílica. Le tocó a Copitas entrar primero en la capilla
ardiente, y aunque en su vida había visto al muerto, se acercó el ataúd, lo
contempló recogido, y volviéndose a Solano le dijo con ese tono que sólo
suscitan y quizá oyen los finados:
- Está idéntico.
A Solano este le produjo un tal ataque de hilaridad que
sólo pudo disimularlo abrazándose estrechamente a Copitas, que a su vez lloraba
de risa, y así se quedaron tres minutos, sacudidos los hombros por terribles
estremecimientos, hasta que uno de los hermanos del difunto que conocía
vagamente a Solano se les acercó para consolarlos.
- Créanme, señores, que jamás me hubiera imaginado en que
la oficina lo querían tanto a Gancedo... Dijo… Como no iba casi nunca…
(La vuelta al día en ochenta mundos – Tomo I – Siglo Veintiuno
Editores. Buenos Aires: 1996)
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