BLOG COM TEXTOS LITERÁRIOS PARA ENTRETENIMENTO


Para ler poemas, fragmentos e poesia em prosa que ousei publicar na internet, veja www.lapidandopedras.blogspot.com

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O MAU VIDRACEIRO - BAUDELAIRE - POEMA EM PROSA




Há naturezas meramente contemplativas e de todo inaptas para a ação, mas que, sob um impulso misterioso e desconhecido, agem por vezes com uma rapidez de que elas mesmas se julgariam incapazes.

Uma pessoa que, com receio de receber do porteiro uma notícia aflitiva, ronda medrosa uma hora em torno da porta sem se decidir a entrar; outra que, durante quinze dias guarda uma carta sem abri-la ou só ao fim de seis meses resolve tomar a providência que se fazia necessária desde um ano atrás, sentem-se, em dados instantes, impelidas para a ação por uma força irresistível, como a flecha de um arco. O moralista e o médico, que tudo pertencem saber, não podem explicar donde vem tão de repente uma tão louca energia a essas almas preguiçosas e voluptuosas, e como, incapazes de realizar as coisas mais simples e mais necessárias, encontram elas em certo momento uma esplêndida coragem para executar os atos mais absurdos e, não raro, até os mais arriscados.

Um de meus amigos, o mais inofensivo sonhador que porventura já existiu, certa vez ateou fogo a uma floresta para ver, dizia ele, se o fogo pegava com tanta facilidade como se costuma afirmar. Dez vezes seguidas a experiência falhou; mas na undécima o resultado excedeu a expectativa.

Outro acenderá um charuto perto de um barril de pólvora, para ver, para saber, para tentar a sorte, para se obrigar a si mesmo a dar prova de energia, para se fazer de jogador, para conhecer os prazeres da ansiedade, para coisa nenhuma, por capricho, por falta de ocupação.

É uma espécie de energia que brota do devaneio e do tédio; e aqueles em quem ela se manifesta de maneira tão inopinada são, em geral, como já o disse, os mais indolentes e os mais sonhadores entre os seres.

Outro, tímido a ponto de baixar os olhos até ante os olhares dos homens, a ponto de lhe ser preciso enfeixar todas as parcelas de sua pobre vontade para entrar num café ou passar à portaria dum teatro, onde os porteiros lhe parecem investidos na majestade de Minos, de Éaco ou de Radamento, saltará de relance ao pescoço de um velho que caminha a seu lado e o beijará com entusiasmo perante a multidão atônita.

Por quê? Porque... porque essa fisionomia lhe era irresistivelmente simpática? Talvez; mas é mais lícito supor que ele mesmo não sabe por quê.

Mais de uma vez fui vítima destas crises e destes impulsos, que nos autorizam a crer que malignos Demônios se infiltram em nós e nos induzem a realizar, à nossa revelia, os seus mais absurdos caprichos.

Certa manhã, levantara-me aborrecido, triste, fatigado de inércia, e impelido, parecia-me, a fazer algo grandioso, uma ação brilhante; e abri a janela - ai de mim!

(Observem, por favor: o espírito de mistificação, que, nalguns seres, não resulta de trabalho ou de cálculo, mas de uma inspiração eventual, participa muito, ao menos pelo ardor do desejo, desse humor - histérico segundo os médicos, satânico segundo os que pensam um pouco melhor que os médicos - que nos arrasta sem resistência a inúmeras ações perigosas ou incovenientes.)

A primeira pessoa que avistei na rua foi um vidraceiro, cujo grito dilacerante, dissonante, subiu até mim através da pesada e suja atmosfera parisiense. Ser-me-ia impossível dizer por quê - senti-me possuído, em relação àquele homem, de um ódio súbito e despótico.

- Olá! Olá!

Gritei-lhe que subisse. Entretanto refletia, não sem algum prazer, que, ficando o quarto no sexto andar e sendo a escada muito estreita, ele teria de sentir alguma dificuldade em realizar a ascensão, e não poderia defender de numerosos esbarrões a sua frágil mercadoria.

Apareceu, afinal; examinei-os, curioso, todos os seus vidros, e disse-lhe:

- Como? Não tem vidro de cor? vidros róseos, vermelhos, azuis, vidros mágicos, vidros paradisíacos? Descarado! ousa andar em bairros pobres, e não tem, sequer, vidros que façam ver o lado belo da vida!

E empurrei-o energicamente para a escada, onde ele tropeçou, a resmungar.

Aproximei-me do balcão, agarrei um pequeno jarro de flores e, quando o homem reapareceu na soleira, deixei cair perpendicularmente a minha máquina de guerra sobre o resultado posterior da sua carga; e, como o choque o derrubasse de costas, ele acabou de espedaçar sob o dorso toda a sua pobre fortuna ambulatória, que produziu o fragor de um palácio de cristal fendido pelo raio.

E, ébrio da minha loucura, gritei-lhe furioso:


- O lado belo da vida! O lado belo da vida!

Esses graciosos nervosos não deixam de ter o seu perigo, e podem muitas vezes custar caro. Que importa, porém, a danação eterna a quem encontrou num segundo o infinito do prazer?

sábado, 14 de abril de 2012

EL POETA PIDE A SU AMOR QUE LE ESCRIBA (GARCÍA LORCA)


Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

OLIVERIO GIRONDO 6 - ESPANTAPAJAROS

Mis nervios desafinan con la misma frecuencia que mis primas. Si por casualidad, cuando me acuesto, dejo de alarme a los barrotes de la cama, a los quince minutos me despierto, indefectiblemente, sobre el techo de mi ropero. En ese cuarto de hora, sin embargo, he tenido tiempo de estrangular a mis hermanos, de arrojarme en algún precipicio y de quedar colgado de las ramas de un espinillo.

Mi digestión inventa una cuantidad de crustáceos, que se entretienen en perforarme el intestino. Desde la infancia, necesito que me desabrochen los tiradores, antes de sentarme en alguma parte, y es rarísimo que pueda sonarme la nariz sin encontrar en el pannuelo un cadáver de cucaracha.

Todavia, cuando llovizna, me duele la pierna que me aputaron hace tres annos. Mi rìnnon derecho es un maní. Mi rínnon izquierdo se encuentra en el museo de la Facultad de Medicina. Soy políglota y tartamudo. He perdido, a la loteria, hasta las unnas de los pies, y en el instante de firmar mi acta matrimonial, me di cuenta que me había casado con una cacatúa.

Las margenes de los libros no son capaces de encauzar mi aburrimiento y mi dolor. Hasta las ideas más optimistas toman un coche fúnebre para pasearse por mi cerebro. Me repugna el bostezo de las camas deshechas, no siento ninguna propensión por empollarme los senos a las mujeres, y me enferma que los boticarios se equivoquen, con tan poca frecuencia, en los preparados de estricnina.

En estas condiciones, creo sincermente que lo mejor es tragarse una cápsula de dinamita y encender, con toda tranquilidad, un cigarrillo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O LABOR DISCRETO - WALDO MOTTA

Às vezes, abro um livro aleatoriamente, leio um poema que me causa certa primeira impressão. Raramente, vou diretamente ao primeiro poema. Fiz isso com João Cabral de Melo Neto. Hoje, transcrevo o primeiro poema do livro Transpaixão, do Waldo Motta.

O LABOR DISCRETO

As coisas não mudam assim
da noite para o dia, céleres.

Por isso, perdi a flama
que fazia de meus versos

uma tocha iracunda.
Porque no final das contas

o importante é ter mudado
um pouco de mim, ao menos.

O cupim, no anonimato,
rói as vértebras deste tempo.

Waldo Motta, in Transpaixão, Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 2a Edição, Vitória: 2008

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

FELICIDADE - ARISTÓTELES - ÉTICA A NICÔMACO - 8

"Sua própria vida é aprazível por si mesma. O prazer é um estado de alma e para cada homem é agradável aquilo que ele ama. (...) A felicidade é, pois, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo. Esses atributos não se encontram separados como na inscrição em Delos: "Das coisas a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; mas a mais doce é alcançar o que amamos". Todos os atributos pertencem às mais excelentes atividades, e todas juntas, ou uma delas, ou a melhor, nós a identificamos como a felicidade."

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

PABLO NERUDA

CUERPO DE MUJER


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo del abriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

VASKO POPA

O que mais me impressionou no poeta da Sérvia é o animismo. A forma como ele descreve objetos inanimados traz os sentidos humanos para a margem de um universo único e promove a catárse poética. A referência é o livro Osso a Osso, Org. Aleksandar Jovanovic´, Coleção Signos, Editora Perspectiva (co-edição da Editora da USP), São Paulo: 1989.


NO CINZEIRO

Um sol miúdo
De cabelos amarelados de fumo
Apaga-se no cinzeiro

O sangue de um batom barato amamenta
Os corpos mortos das pontas de cigarro

Palitos descabeçados desejam
Coroas de enxofre

Profundezas das cinzas relincham
Freadas sobre as patas traseiras

Mão enorme
De olho ardente no meio da palma
Espreita no horizonte


NO CABIDE

Golas mordiscaram
Os vazios-pescoço dependurados

Últimos pensamentos depositam-se
Nos chapéus quentes

Dedos do anoitecer espreitam
De dentro das mangas-viuvez

Um terror verde brota
Nas rugas-mansidão